10/07/13 02:46 - Atualizado há 9 dias
Não existe no Brasil tabela oficial de honorários para síndico profissional. Quem define o preço é o próprio profissional. O SíndicoNet ouviu profissionais da área que convergem num ponto que contraria o hábito do mercado: o que define o preço não é o tamanho do condomínio, é a complexidade da operação.
A remuneração do síndico profissional normalmente seguia três formas: valor fixo, percentual da arrecadação ou número de salários mínimos. Mas com o aumento da complexidade da gestão, a equação precisou passar a considerar vários critérios do condomínio, além da qualificação e a experiência do síndico para chegar a um preço adequado e justo.
Um prédio de 200 unidades organizado pode dar menos trabalho que um de 80 em crise administrativa. A conta correta começa por um diagnóstico da operação, passa pelo custo real da estrutura do profissional e termina numa pergunta simples: por esse valor, dá para entregar a gestão prometida?
Confira a matéria completa que detalha tudo o que deve ser considerado para se chegar à remuneração que faz jus ao nível da sua prestação de serviço. E se você é condômino ou conselheiro em vias de contratar um síndico profissional para o seu condomínio, esta matéria é para você também! Boa leitura.
Nenhuma lei, convenção ou entidade de classe fixa quanto um síndico profissional deve cobrar. Não há piso, não há tabela de referência e não há sequer um critério de mercado aceito por todos. Inclusive, a atividade não é uma profissão regulamentada - e isso divide opiniões e é assunto para uma outra matéria (leia aqui).
Há condomínio que paga valor fixo, ou percentual da arrecadação e há, ainda, o que calcule em salários mínimos. O resultado é um mercado em que dois profissionais podem apresentar propostas com diferença de 100% para o mesmo prédio — e nenhum dos dois estar errado pela régua que usou.
Para entender como se chega a um valor defensável, o SíndicoNet ouviu duas síndicas profissionais que trabalham com metodologias próprias e declaradas: Vanessa Munis, síndica profissional e advogada, com 14 anos de carreira em São Paulo, e Christiane Romão, síndica profissional com atuação em Salvador.
As duas descrevem caminhos diferentes para o mesmo lugar — e discordam em pontos relevantes, o que ajuda quem precisa formar critério próprio.
A conversa interessa aos dois lados do balcão. Para o síndico profissional, precificar mal é o início de um problema que aparece meses depois, na forma de sobrecarga ou de desistência.
Para o condomínio (condõminos e conselheiros), entender como o preço se forma é o que separa uma contratação barata de uma contratação econômica — que nem sempre são a mesma coisa.
A ausência de uma referência oficial faz com que cada profissional precise construir a própria. Vanessa Munis resolveu isso importando a lógica de outra profissão que exerce. "Eu me balizo muito na tabela prática da OAB de São Paulo, porque sou advogada", diz.
O que ela aproveita não é o valor, é o mecanismo.
"A tabela trabalha com critérios. Eles colocam e estabelecem valores mínimos para justamente o profissional não cobrar valores mínimos de determinado trabalho, para não atingir a questão ética."
A transposição é direta. Na advocacia, cobrar abaixo do piso para conquistar cliente é falta ética; na sindicatura, segundo ela, o efeito prático é o mesmo.
"É como acontece hoje no mercado dos condomínios, onde há síndicos que acabam cobrando abaixo do valor que valeria a remuneração de determinado empreendimento, para poder aumentar o número de clientes da sua carteira."
Christiane Romão parte de outro lugar, mas chega ao mesmo problema.
"Valor é diferente de preço. Antes de falar em valor, eu preciso entender a operação. Honorário não deve nascer de um número aleatório nem da pergunta 'quanto o outro síndico está cobrando?'. Ele precisa nascer da operação que você está assumindo", afirma.
É aqui que as duas se encontram. "Quantidade de unidades mede o condomínio. Complexidade mede o trabalho do síndico", sintetiza Christiane Romão.
Ela ilustra com um contraste que qualquer síndico reconhece: um condomínio de 200 unidades extremamente organizado pode gerar menos demanda que um empreendimento de 80 unidades vivendo uma crise administrativa.
E acrescenta uma variável que raramente aparece em proposta: "Existe também algo que nem sempre aparece em uma planilha: a carga decisória. Há condomínios em que a operação está organizada e o síndico consegue trabalhar de forma estratégica. Em outros, praticamente todas as áreas dependem de intervenção direta da sindicatura."
Vanessa Munis chama o levantamento que antecede a proposta de anamnese — termo largamente usado na área da saúde. "Quanto mais você tiver informações (anamnese do condomínio), mais você vai saber cobrar de uma forma muito mais significativa."
Antes de dizer um número, as duas levantam a mesma categoria de informação. A tabela abaixo reúne os critérios citados nas duas entrevistas e o que cada um altera na conta.
| Critérios para fazer levantamento | Por que impacta no preço |
|---|---|
| Unidades, torres e tipo (vertical, horizontal, clube) | Define a escala da operação, mas não o preço sozinho |
| Idade da edificação e passivo de manutenção | Prédio antigo traz contratos desorganizados e obras pela frente |
| Momento de vida (recém-entregue x em operação) | Implantação é trabalho intenso e concentrado |
| Quantidade de funcionários e de prestadores | Gestão de pessoas e de contratos é demanda contínua |
| Situação financeira e inadimplência | Cobrança, leilão e jurídico exigem acompanhamento especializado |
| Nível de organização administrativa | Operação desorganizada joga toda decisão para a sindicatura |
| Estrutura existente (zelador, gerente predial, administradora) | Sem estrutura, o síndico vira operacional |
| Portaria remota | Pode transferir demanda noturna para o síndico |
| Conflitos internos e processos judiciais | Consomem tempo e elevam exposição |
| Localização e distância até o profissional | Deslocamento é custo e é tempo |
| Perfil dos moradores e padrão do bairro | Muda o nível de exigência e de presença |
| Se o condomínio já teve síndico profissional | O primeiro tem trabalho de implantação de cultura |
"Não avalio apenas o tamanho físico do condomínio", resume Christiane Romão. "Avalio principalmente o tamanho da responsabilidade e da demanda de gestão que ele representa."
O erro mais caro, segundo as duas, é tratar o honorário como receita líquida. Este é receita bruta de uma atividade com estrutura. Christiane Romão lista nominalmente o que precisa estar calculado antes de qualquer margem: deslocamento, impostos, telefone, tecnologia, equipe de apoio, capacitação, contador, assessorias, seguros e horas de trabalho.
Vanessa Munis dá ordem de grandeza aos próprios custos. Ela paga 17,5% de impostos por nota fiscal emitida, mantém seguro de responsabilidade civil de R$ 1 milhão, remunera representantes responsáveis por visitas aos condomínios de sua carteira. E inclui na conta as horas da própria equipe quando o condomínio não tem gerente de obras: "Isso também é um custo, porque a hora custa, o tempo custa."
| Item de custo | O que é |
|---|---|
| Impostos sobre a nota fiscal | Incidem sobre o bruto, independentemente do valor |
| Deslocamento | Distância entre a base do profissional e o condomínio |
| Equipe e representantes | Quem vai ao prédio quando o titular não pode |
| Seguro de responsabilidade civil | Cobertura para questões de gestão |
| Capacitação e certificações | Atualização permanente do profissional |
| Contador, assessorias e tecnologia | Estrutura que sustenta a entrega do serviço de sindicatura |
| Risco jurídico | Síndico pode ser arrolado em processo e ter de custear a própria defesa |
Esse último item é o que Vanessa mais insiste em tornar visível. "Enquanto está dando tudo certo, maravilhoso. E se der errado?... Tem que estar na conta."
As duas recusam o modelo de proposta que promete tudo. "Não considero saudável vender um contrato dizendo que está tudo incluído, porque não existe gestão ilimitada", diz Christiane Romão.
"O contrato precisa proteger as duas partes. O condomínio precisa saber exatamente o que está contratando e o profissional precisa ter clareza sobre até onde vai aquele escopo."
| Dentro do pacote | Cobrado à parte |
|---|---|
| Visitas programadas e reuniões ordinárias de gestão | Obra de grande porte e retrofit, com acompanhamento intensivo |
| Assembleias previstas em contrato | Assembleias extraordinárias em quantidade excessiva |
| Acompanhamento da administradora e análise financeira | Representação em audiência fora do condomínio |
| Gestão de contratos, fornecedores e equipes | Reunião adicional de conselho além da prevista |
| Comunicação com moradores e gestão de ocorrências | Implantação de projetos especiais |
| Emergências | Despesas de deslocamento fora do perímetro |
Vanessa Munis usa a mesma lógica com cláusulas mais detalhadas: reuniões adicionais com conselho tem percentual já fixado em contrato — entre 10% e 20% do honorário —, com nota fiscal própria. Para situações de emergência, ela cobra pelo deslocamento da equipe.
O racional é a previsibilidade do orçamento para, justamente, minimizar surpresas e manter dentro da previsão orçamentária.
Sobre reajuste, qualquer prestador de serviços costuma incluir em contrato índice de inflação a cada 12 meses, mas esta pode não ser a única variável no caso da sindicatura profissional.
Pode depender do volume de demanda que se apresenta no dia a dia real da gestão, novas atividades ou necessidades que se apresentem no decorrer do meses.
O critério mais usado no mercado é também o mais traiçoeiro. "Tenho parâmetros de referência, mas não utilizo simplesmente um preço fixo por unidade", diz Christiane Romão. "O valor por unidade pode até servir como indicador de comparação, porém, sozinho, ele pode produzir uma distorção enorme."
Vanessa Munis mostra a distorção com a própria tabela — e os números abaixo são a tabela dela, não uma referência de mercado.
Ela trabalha com um piso de R$ 4.500 para condomínios de até 20 unidades com estrutura (funcionários, prestadores de serviço etc) e sem área comum, o que dá cerca de R$ 225 por unidade.
Em condomínios maiores e de perfil clube, considerando toda a estimativa baseada na anamnese e nos critérios, o valor por unidade pode ficar na faixa de R$ 50 a R$ 60; em casos de complexidade intermediária, fica em torno de R$ 100.
Mas é uma referência baseada na equação com os critérios adotados por ela. "Se eu informar que cobro R$ 200/unidade, o condomínio calcula que será R$ 200 multiplicado pelo nº de unidades. E esta não é a conta."
O contraste de mercado que ela relata é o retrato do problema. Um síndico profissional em início de carreira a quem ela presta consultoria participou de uma concorrência para um condomínio de 400 unidades em que, segundo o relato, síndicos renomados cobraram R$ 6 mil e ele cobrou R$ 12 mil. Perguntada quanto cobraria, Vanessa respondeu: "pelo menos R$ 18 mil". Três propostas, três réguas, nenhuma tabela para arbitrar.
As duas apontam a mesma lista curta de armadilhas.
Vanessa Munis frisa muito a questão ética na precificação correta:
"Se o síndico efetivamente não cobrar em contrato o que vale o seu serviço, eventualmente ele vai sentir falta da remuneração, vai se sentir desgastado, vai perceber que ele cobrou mal, cobrou errado. Então quando ele cobra errado, abre-se uma brecha para o esgotamento e margem também para começar a cobrar 'bola' por fora."
Do outro lado da mesa, o conselho e os moradores precisam de critério — e o critério, como visto até aqui, definitivamente não é o menor preço.
Antes de abrir a concorrência, vale revisar Quando contratar um síndico profissional. "Eu começaria pela pergunta: quem estará efetivamente cuidando do meu patrimônio?", propõe Christiane Romão.
O que analisar: experiência, referências, estrutura profissional, capacidade de gestão financeira, conhecimento de manutenção predial, organização documental, comunicação, condução de conflitos e, principalmente, método de trabalho.
O que perguntar ao candidato:
Vanessa Munis acrescenta um alerta sobre o critério mais usado pelos condomínios, o tempo de experiência do candidato.
"A gente não pode desmerecer quem está começando e achar que só porque a pessoa tem mais tempo na atividade é sinônimo de competência e ética."
Reputação e método, para ela, pesam mais que senioridade. E pede atenção às referências, inclusive para quem fez transição de carreira para sindicatura profissional: "Posso entrar em contato com o seu antigo empregador? Posso falar com ele? Você tem referências?"
Os sinais de alerta citados pelas duas:
"Preço importa, claro. Condomínio precisa ter responsabilidade financeira. Mas escolher sindicatura profissional somente pelo menor honorário pode ser uma economia extremamente cara. O síndico mais barato não necessariamente gera a gestão mais barata. Uma decisão técnica equivocada, uma manutenção negligenciada ou um contrato mal conduzido pode custar muitas vezes o valor economizado nos honorários", diz Christiane Romão.
Não. Nenhuma lei, convenção coletiva ou entidade de classe fixa piso ou teto para o honorário do síndico profissional no Brasil. Não há regulamentação da atividade. Cada profissional define o próprio critério, o que explica a variação grande entre propostas para o mesmo condomínio.
O valor por unidade serve como referência de comparação, não como fórmula. Usado sozinho, distorce: o preço por unidade cai conforme o condomínio cresce, e um prédio pequeno em crise pode exigir mais trabalho que um grande e organizado.
A complexidade da operação. Obras em andamento, ausência de manutenção preventiva, inadimplência alta, muitos funcionários, contratos desorganizados, processos judiciais, conflitos entre moradores e condomínios em implantação elevam a demanda de gestão e, com ela, o honorário.
Visitas programadas, reuniões de gestão, acompanhamento da administradora, análise financeira e orçamentária, gestão de contratos, fornecedores e equipes, comunicação com moradores e as assembleias previstas em contrato. Obras de grande porte e assembleias extraordinárias em excesso costumam ser cobradas à parte.
Sim, se houver mudança no escopo do serviço ou aumento de demandas inesperadas. A prática regular é a correção ser discutida na renovação ou na reeleição.
Nem sempre. Uma decisão técnica equivocada, uma manutenção negligenciada ou um contrato mal conduzido podem custar várias vezes a diferença economizada no honorário. O critério recomendado é método de trabalho e estrutura de entrega, não o menor preço.
Monte a anamnese do condomínio antes de propor qualquer valor — unidades, estrutura, funcionários, financeiro, nível de organização e carga decisória. Calcule o custo real da sua operação (impostos, deslocamento, equipe, seguro, capacitação) antes da margem. Escreva no contrato o que é escopo e o que é extra. E aplique o teste de Christiane Romão: "Por esse valor, eu consigo entregar a gestão que estou prometendo?" Se a resposta for não, o preço está errado.
Peça a cada candidato o método, não só o valor. Compare propostas pelo escopo descrito, não pelo número final. Cheque referências de verdade. E leve ao conselho a pergunta de abertura: quem vai efetivamente cuidar do patrimônio?
E conte para a gente: Você, síndico profissional, como calcula a sua remuneração? Responda à enquete desta matéria:
Fontes consultadas: Vanessa Munis (síndica profissional e advogada), Christiane Romão (síndica profissional), Vania Dal Maso (Lello), Gabriel Karpat (GK), Nilton Savieto (síndico profissional), Cristiane Prates (Protel), Ricardo Karpat (Grupo Gábor).