Fraudes

Chico Felitti: “Um condomínio é um bonsai de país”

Autor dos podcasts sobre síndicos que viralizaram afirma que condomínios reproduzem conflitos, crimes e disputas de poder da sociedade, mas com menos instituições para fiscalizar

Por Catarina Anderáos

26/08/26 09:21 - Atualizado há 2 h


A conversa aconteceu durante o Superlógica Next, em 25 de agosto de 2026. Catarina Anderáos, editora‑chefe do portal SíndicoNet, entrevistou Chico Felitti, jornalista e podcaster dos famosos podcasts O Síndico e A Síndica. Ao longo do encontro, Chico falou sobre o universo condominial que investiga, a repetição de abusos de poder, problemas estruturais da legislação e lições práticas para moradores e síndicos.

Chico afirmou que enxerga o condomínio como “um bonsai de país”: um espaço onde se reproduzem crimes, conluios, amizades e picuinhas — só que com menos instituições e menos fiscalização. A partir desse olhar, ele contou casos que inspiraram os podcasts, explicou sinais de alerta de gestões que descambam, e apontou medidas simples e chatas — mas eficazes — para prevenção de fraudes e mau uso do dinheiro coletivo.

A conversa também trouxe temas pessoais: Chico explicou sua rotina de natação — nada uma hora a uma hora e meia por dia e já fez a travessia entre Ásia e Europa em Istambul quando tinha 30 anos. Catarina, que é síndica há dez anos, compartilhou situações do cotidiano condominial e os desafios de conciliar a gestão com a convivência entre vizinhos. Ao final, os dois refletiram sobre o papel do jornalismo em despertar participação e vigilância nas assembleias.

A seguir, confira a entrevista pingue‑pongue.

SíndicoNet: Você já conhece o SíndicoNet — e a gente aqui curte muito o seu trabalho. Para começar: o que um condomínio revela sobre a sociedade em que vivemos?

Chico Felitti: Pra mim um condomínio é um bonsai de país. É uma mini‑sociedade: tem democracia, grupos que discordam, crime, amizade, conluio, picuinha. Tudo que acontece na sociedade se reproduz em menor escala no condomínio, só que com menos instituições pra vigiar, punir ou regulamentar. Isso torna mais fácil que situações aberrantes floresçam quando ninguém olha.

Catarina Anderáos: Você investigou casos muito extremos nos podcasts. O que o olhar jornalístico de fora permitiu enxergar que moradores já haviam normalizado?

Chico Felitti: Uma das coisas é o processo de normalização, aquele efeito da rã na panela: vai esquentando aos poucos e as pessoas deixam passar. As áreas comuns vão sendo desativadas, proibições sutis — como regras de vestimenta — viram rotina. No caso da doutora Graça, por exemplo, 42 anos no poder criaram erosão: decisões que à primeira vista pareciam pequenas foram acumulando abusos e distorções, até chegar a atos claramente impróprios, como pedidos de usucapião questionáveis.

Catarina Anderáos: E quais são os sinais de alerta de que uma gestão aparentemente normal começa a sair dos trilhos?

Chico Felitti: Há sinais coletivos e sinais individuais. Entre os coletivos: trocar toda a equipe por uma terceirizada sem justificativa, contratos de obra que aparecem do nada, obras e despesas que não constam na vida prática do prédio. Entre os individuais, coisas como o síndico que compra propriedades inexplicáveis para seu padrão — e que, às vezes, se entrega sozinho ao postar no Instagram, por exemplo. Visualmente, piscina verde, áreas comuns desativadas, funcionários trocados em massa: são sinais de que a trilha do dinheiro e da manutenção deixou de existir.

Catarina Anderáos: Falando em dinheiro: você repete que o condomínio movimenta muita grana. Como isso afeta a vulnerabilidade a fraudes?

Chico Felitti: É muita grana juntada de várias pessoas — e quando a sociedade paga o boleto e acha que o trabalho acabou, deixa de fiscalizar. O problema é que esses recursos se multiplicam e vão parar nas mãos de alguém. Se não há regras claras de movimentação, de duplo checagem, ou se o conselho não fiscaliza, dá carta branca pra quem tem má‑fé. Por isso digo: o controle preventivo, chato que é, salva muita dor de cabeça.

Catarina Anderáos: Você mencionou que a legislação condominial está “empoeirada”. Como isso interfere nos casos que você cobre?

Chico Felitti: Muitos artigos do Código Civil são vagos para situações cotidianas de condomínio, e projetos de lei malfeitos complicam ainda mais. Há várias interpretações e zonas cinzentas; comprovou‑se um crime e o caso caduca por falta de previsão clara. Além disso, há uma disputa sobre quem regulamenta a profissão do síndico — por exemplo, o Conselho Regional de Administração (CRA) tenta representar síndicos profissionais e tem autuado e multado pessoas, o que gerou contestações jurídicas. Essas brigas de representação e arrecadação dificultam uma regulamentação séria e técnica.

Catarina Anderáos: E quanto à profissionalização do síndico? Você vê vantagens e problemas?

Chico Felitti: Há síndicos profissionais competentes e há quem ache que a profissionalização é caminho. Mas a pergunta é: por que eu, jornalista que fez cursos técnicos e dois semestres no SECOVI, teria que me filiar ao CRA? O tema não é só técnico, é ética, código de conduta. Há uma briga por detenção de categoria porque quem detém a categoria captura repasses financeiros. Ou seja: profissionalizar pode ajudar, mas depende de quem e como se regula.

Catarina Anderáos: Na prática, o que moradores desconfiam de golpe podem — e devem — fazer?

Chico Felitti: O preventivo é chato, mas simples: exige documentação. Você tem direito às pastas, balancetes, entradas e saídas. Conferir balancetes, exigir procurações com data, pauta e limite, checar a convocação de assembleia — tudo isso é possível sem ser Sherlock Holmes. Uma hora por mês para olhar o boleto e o balancete pode poupar muita dor de cabeça. Se algo não bate, peça extratos bancários, conversas com o conselho, e, se necessário, procure advogado.

Catarina Anderáos: E sobre procurações e votos: esse é um problema recorrente nos casos que você ouviu?

Chico Felitti: Sim. A perpetuação no poder muitas vezes se dá por procurações acumuladas. Tem casos de síndicos com dezenas de procurações que garantem reeleição. Uma medida simples é que a convocação especifique regras para procuração: data, pauta, prazo. É algo que não exige mudar convenção, só disciplina na convocação. Mas falta participação dos moradores para exigir esse cuidado.

Catarina Anderáos: Participação parece ser a vacina que você mais repete. Como criar cultura de participação?

Chico Felitti: Exato: participação. No Brasil há uma tendência de achar que o voto é o fim do trabalho cívico — “dei meu voto, acabou” — e esse desinteresse abre espaço pra abuso de poder. A educação cívica ajudaria: saber direitos e deveres dá convivência mais pacífica. Se todo mundo fizesse a sua parte, não chegaria no absurdo. Eu vi inúmeras mensagens de ouvintes dizendo “saí pra assembleia e tirei uma doutora Graça”, e isso mostra que o podcast ajudou a mobilizar.

Catarina Anderáos: Voltando a exemplos concretos: quais casos lhe marcaram pelo modo como o poder foi exercido?

Chico Felitti: Dois tipos: o predatório — como o homem que se apresentava como investidor, era eleito, saqueava o prédio e seguia pra outro — e o de assimilação ao poder, como a síndica que acabou instituindo um cargo vitalício no JK por 42 anos. O primeiro era predatório, rápido; o segundo, gradual e profundo. Nos dois, a ausência de vigilância e a normalização foram centrais.

Catarina Anderáos: E quando a comunidade reage depois do escândalo? Há aprendizado duradouro?

Chico Felitti: Nem sempre. Vejo casos em que, diante do rombo, todo mundo se une, elege um novo síndico e resolve a emergência — mas depois volta a acomodar‑se. Gestão de crise mobiliza, mas a manutenção dessa vigilância é o desafio. A alternância de mandatos e limites é uma ferramenta útil: a alternância é o menor dos problemas; bem pior é a perpetuação.

Catarina Anderáos: Você já foi síndico profissional ou mora no condomínio que administra? Como concilia?

Chico Felitti: Em muitos casos, quem mora no prédio assume porque ninguém quer ocupar o cargo. Há síndicos profissionais que não moram no prédio — e conheço profissionais da área de condomínios que preferem morar em casa justamente porque o papel consome a vida. É um trabalho que exige tempo, energia e disposição para lidar com as pessoas.

Catarina Anderáos: E quando você encontrou problemas no seu próprio condomínio, como procedeu?

Chico Felitti: Um exemplo: fui mordido por um cachorro no prédio; levei quatorze pontos e, ao sair do hospital, conversei com a síndica: “o que implica denunciar para a polícia? Vai causar mais dano ao condomínio?” Discutimos com calma, levamos a pauta à assembleia e aprovamos o uso de focinheira. Nem sempre precisa ser processo: mediação, diálogo e votar regras que funcionem foram solução prática naquele caso.

Catarina Anderáos: Você já teve equipe para investigar os casos que virou podcast? Como foi o processo investigativo?

Chico Felitti: Tinha um advogado que trabalha comigo — o Lu Alencar — e isso ajudou muito. A investigação partia das histórias humanas, das entrevistas; depois íamos para a papelada, para processos e balancetes, porque em 42 anos tem um calhamaço de coisa. Trabalhamos com entrevistas, documentos e análise jurídica e contábil quando necessário.

Catarina Anderáos: E voltando ao papel do podcast: você acha que ele mudou a postura dos moradores?

Chico Felitti: Sim, ouvi muita gente dizer que foi pra assembleia depois de ouvir o podcast, mandei várias selfies de pessoas na assembleia querendo evitar uma “doutora Graça”. Acho que o podcast funciona como alerta e como contraexemplo: ao mostrar abusos extremos, motiva participação e vigilância.

Catarina Anderáos: Para quem vai morar em condomínio pela primeira vez, qual é sua principal recomendação prática?

Chico Felitti: Conversa. Fica na porta do prédio, fala com moradores que estão saindo — pergunte “como é a convivência?” — as pessoas adoram contar. Se alguém disser “foge”, escute. É o melhor termômetro. E faça a lição de casa: leia atas, verifique boletos, peça extratos. É chato, mas evita problemas.

Catarina Anderáos: Seria útil um curso sobre como morar em condomínio?

Chico Felitti: Não sou contra — seria tipo uma autoescola: conviver é uma habilidade. Morar em condomínio é conviver com outras pessoas; um curso de noções básicas de convivência e direitos e deveres não é má ideia.

Catarina Anderáos: Para fechar, você toparia ser síndico do condomínio onde você mora?

Chico Felitti: No condomínio anterior, que é mais velho e menor, até toparia; mas no novo, muito grande, não. Gosto da ideia de profissionalização, mas é preciso cuidado com quem representa a categoria. Eu prefiro ajudar participando e colaborando naquilo que for útil.

 

Fonte: Chico Felitti (jornalista investigativo e podcaster).